Data mining e data brokers: o limite entre a estratégia comercial e o risco de cibersegurança

Conheça onde está o limite legal e ético, e aprenda a blindar a sua privacidade.

Os dados consolidaram-se como os ativos mais valiosos para qualquer organização. Bem utilizados, permitem-nos conhecer muito melhor os nossos clientes, personalizar serviços e antecipar tendências de mercado. No entanto, esta imensa capacidade de recolha e análise é uma faca de dois gumes.

Para uma entidade financeira como o BBVA, onde a confiança e a proteção da informação são pilares fundamentais, é crucial compreender conceitos como o Data Mining e a figura dos Data Brokers, bem como os riscos de cibersegurança e reputação que envolvem se forem ultrapassados os limites éticos e legais.

O que é o Data Mining e que papel desempenham os Data Brokers?

Para compreender o panorama atual, devemos diferenciar o processo tecnológico dos atores que comercializam com ele:

  • Data Mining (mineração de dados): é o conjunto de técnicas estatísticas e de computação utilizadas para explorar grandes volumes de dados (Big Data) com o objetivo de descobrir padrões, correlações ou anomalias ocultas.

  • Data Brokers (corretores de dados): são empresas cuja atividade principal consiste em recolher informação de cidadãos a partir de milhares de fontes públicas e privadas (redes sociais, históricos de navegação, registos de compras, etc.), limpá-la, analisá-la e vendê-la a terceiros sem que, em muitos casos, os utilizadores estejam conscientes disso.

O valor interno: O Data Mining como motor do negócio

A nível interno, e dentro do quadro legal, a mineração de dados é uma ferramenta extraordinária. No setor bancário, permite-nos:

  • Optimizar estratégias de marketing: conceber produtos financeiros adaptados às necessidades reais de cada perfil de cliente.

  • Prevenir a fraude: detetar padrões de transações invulgares em tempo real para proteger as contas dos nossos utilizadores.

  • Avaliação de risco: melhorar os modelos de concessão de crédito de forma mais precisa.

O perigo da extração excessiva: o caso Cambridge Analytica (publicado em 2018)

O verdadeiro risco surge quando as técnicas de Data Mining se combinam com a falta de ética e a extração massiva e inconsciente de dados. Um exemplo claro é o que aconteceu com o escândalo do Facebook e da Cambridge Analytica.

O que aconteceu?

Uma empresa de consultoria política utilizou uma aplicação de testes de personalidade aparentemente inofensiva no Facebook. Não só recolheram os dados dos utilizadores que fizeram o teste, como também, de acordo com as definições de privacidade da rede social, foram capazes de extrair sem o consentimento dos utilizadores os dados pessoais dos perfis de todos os seus “amigos”.

O que eles obtiveram e como o utilizaram?

Cambridge Analytica obteve o perfil psicológico e de comportamento de mais de 87 milhões de pessoas. Com esta informação:

  • Microsegmentação da população: identificaram os eleitores mais “indecisos” ou “influenciáveis”.

  • Conceção de campanhas eleitorais: conceberam campanhas de comunicação e anúncios personalizados direcionados a esses perfis para tentar influenciar as eleições presidenciais dos Estados Unidos no referendo do Brexit de 2016.

Este caso demonstrou que os dados não são úteis apenas para vender produtos, mas também podem ser usados ​​para tentar manipular o comportamento em larga escala.

Por que isso representa uma ameaça à segurança cibernética?

Desde a perspetiva da segurança da informação, o ecossistema dos Data Brokers e a mineração de dados descontrolada representam três ameaças principais:

  • Engenharia social avançada (phishing direcionado): se um cibercriminoso comprar o seu perfil detalhado a um Data Broker (os seus gostos, a universidade onde estudou, as suas compras recentes), pode criar um e-mail falso fazendo-se passar pela sua loja favorita ou pelo seu banco, tão perfeito que seria quase impossível de detetar.

  • Fugas de dados e violações de segurança: os Data Brokers armazenam bases de dados gigantescas. Se uma destas empresas sofrer um ataque informático, a informação privada de milhões de pessoas (que, por sua vez, são nossos clientes ou colaboradores) fica exposta na Dark Web.

  • Risco regulatório e de reputação: para o BBVA, a custódia dos dados é fundamental. A utilização de dados de proveniência duvidosa ou o armazenamento excessivo sem um fim justificado não só viola normativas estritas como o RGPD ou a Lei Orgânica de Proteção de Dados e garantia de direitos digitais, como também destruiria a confiança que os clientes depositam em nós.

A cibersegurança é uma responsabilidade partilhada. Para proteger a sua pegada digital perante estas ameaças, recomendamos-lhe duas ações rápidas:

  • Reveja as permissões das suas apps: elimine o acesso à sua localização e contactos nas aplicações que não precisem deles para funcionar.

  • Desconfie de mensagens feitas à sua medida: se receber um e-mail ou SMS “demasiado perfeito” com uma ligação urgente, não clique. Entre sempre a partir da app ou do site oficial.